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É provável que você já tenha se deparado em esse termo. Clientes e tradutores de espanhol estão acostumados a ouvi-lo, mas muitos ainda não sabem muito bem o que esse conceito implica.

O segmento de traduções e versões ao espanhol mantém muitas semelhanças com outros pares de idioma que não o incluem.

Isso é um fato, e milhares de tradutores encontrariam várias semelhanças em suas vidas profissionais.

Entretanto, os profissionais que traduzem ao espanhol encontram-se, muitas vezes, com pedidos muito específicos de clientes:

“Eu gostaria de uma tradução ao espanhol chileno”

“Estou prestes a expandir minha empresa e preciso que meu site seja traduzido ao espanhol argentino”

“Quero publicar meu livro na Espanha e quero uma tradução segundo o espanhol de lá”

Esse tipo de exigência não é nenhuma novidade, e aponta para uma característica paradoxal da língua espanhola: sua infinita semelhança e, ao mesmo tempo, as múltiplas características de regiões específicas.

Esse fenômeno é facilmente explicável ao tratarmos de uma língua oficial em 22 países, com mais de 110 milhões de pessoas que a falam como segunda língua e que é cada vez mais importante nas relações políticas e comerciais ao redor do mundo.

Todavia, ao lado da procura por traduções voltadas para um contexto mais específico, há uma demanda crescente — talvez muito maior do que a primeira — por textos em espanhol neutro. Mas o que significa isso?

O que é o espanhol neutro?

O espanhol neutro (também conhecido como castelhano neutro, espanhol global e espanhol internacional) é praticamente uma língua criada, ou melhor, recriada a partir do espanhol padrão que encontramos em gramáticas, dicionários e livros didáticos.

Isso significa que funciona como uma nova forma estandardizada da língua, e exclui características linguísticas que são identificadas em variantes específicas a nível macro (mexicana, colombiana, etc.).

O objetivo de tal configuração linguística salta aos olhos: fazer com que os meios de comunicação e entretenimento possam chegar (e vender) seus produtos ao máximo número possível de hispanofalantes.

Pode ser definido como uma modalidade que nasce do castelhano e que tem fins comerciais em uma ampla área territorial.

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 História da Língua Espanhola

A ideia de ver o espanhol como uma língua coletiva não é novidade, e até agrupações de falantes de escopo mais pequeno já foram alvo de políticas que partiram de pressupostos hegemônicos.

Nesse sentido, encontrar semelhanças em meio a diferenças é possível, mas o que importa é que a relação entre língua e Estado, no caso do espanhol, é mais complexa do que a de outras línguas românicas.

Um marco importante para a discussão é o das independências americanas, a partir de 1808.

A língua não passaria impune nesse processo, e se ela era, ao mesmo tempo, uma consequência do longo processo colonial, seria também um dos eixos de formação dos novos países.

A Real Academia Española (RAE) e a Asociación de Academias de la Lengua Española (ASALE) foram agentes importantes para promover a ideia de um espanhol comum, mas diferente, durante todo o processo.

Nesse ínterim, normas subjacentes nasceriam dos novos centros de prestígio do mundo hispanofalante.

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As grandes capitais como Buenos Aires, Santiago del Chile e Bogotá representavam variantes que não estavam “erradas”, mas não eram iguais ao “espanhol ibérico” (com todas as aspas possíveis, há múltiplas variantes de espanhol na península).

Normas linguísticas e mercado editorial

As normas linguísticas que saíam desses referentes era plurilateral, fixada em aspectos superficiais e comuns aos centros.

No fim do século XX a Espanha ressurge como potência econômica, e aproveita o momento de alta do hispanismo.

Os interesses de uma cultura de massa acorde a uma postura política liberal aproxima os produtos culturais de massa e os consumidos pelas elites.

A formação de um mercado editorial amplo (e principalmente controlado pela Espanha), a consolidação do cinema, rádio, novelas e música são os melhores exemplos de uma nova era para a circulação de produtos dentro da comunidade de falantes de espanhol.

Por essa razão, muitos produtos e serviços são pensados para um público trans-hispânico. Nesse sentido, uma característica constitutiva da língua influi nesse contexto:

Falada em mais de vinte países, o espanhol constitui, na realidade, um conjunto de normas diversas, que partilham, não obstante, uma ampla base comum: aquela que se manifesta na expressão culta de nível formal, extraordinariamente homogênea em todo o âmbito hispânico, com variações mínimas entre as diferentes regiões, quase sempre de nível fônico e lexical (RAE 2005: xiv apud Fanjul, Adrian 2011: 330).

O que é o espanhol neutro, na prática?

Com toda a discussão que desenvolvemos até agora, já ficou mais fácil de entender o conceito de espanhol neutro e como ele funcionaria na prática.

Na oralidade, é importante ressaltar que o espanhol neutro é formado por 17 fonemas consonantais (o espanhol do centro e de considerável parte norte da Espanha possui 19, para que possamos comparar).

Isso significa que o espanhol neutro é seseante, não tem o fonema interdental Ө .

Ao traduzir um texto guiado por esse objetivo, o tradutor irá empregar termos que são mais comuns em todo o mundo hispânico.

Nada de pibe, gurí ou chaval, um texto em espanhol neutro irá preferir termos como chico ou niño.

Qual o objetivo do Espanhol neutro?

O objetivo principal é tornar o texto compreensível em qualquer lugar em que estejam os falantes de espanhol, sejam nativos ou falantes estrangeiros.

É perceptível a preferência do pronome interrogativo cuál em detrimento de qué, e a ausência de complemento direto em várias sentenças;

Por exemplo: Ella no sabe que nosotros sabemos, alguién tendrá que explicarle a la pobre (eso).

Também é comum o uso alternado do pretérito perfeito (ha venido, he comprado) e do pretérito indefinido (viniste, compraste) para falar de uma ação não concluída dentro de um espaço de tempo no passado.

Às vezes usa-se até mesmo o presente em casos congêneres.

No que diz respeito aos pronomes, o uso de é generalizado, assim como ustedes para o plural.

Formas do vos moderno praticamente desaparecem, e o único uso do pronome é em textos que buscam criar um efeito arcaico.

Você já teve experiências com o espanhol neutro? Compartilhe seus conhecimentos nos comentários. ¡Hasta luego!

 

2 thoughts to “O que é espanhol neutro

  • Sérgio Vaz

    Boa noite, estava pesquisando sobre espanhol neutro e encontrei este texto. Parabéns pela excelente discussão. Fiquei com uma dúvida: existe um pensamento que todas as linguas tem uma forma ‘neutra’, por exemplo no Brasil, que adota-se o português do rio/são paulo em quase todas as traduções. Qual seria a diferença do espanhol neutro e dessa prática?
    Obrigado e muito sucesso
    Sérgio

    Responder
    • Rosane Bujes

      Boa noite, Sérgio. Bem-vindo ao blog.
      As diferenças no espanhol são muitas. Tudo dependerá do mercado ou país que se deseja atingir. Normalmente, utiliza-se o Espanhol usado na Espanha, porém é preciso ver muitos fatores. O cliente, que deseja uma tradução para determinado país irá informar seu objetivo. Somente assim, o tradutor poderá tomar suas decisões terminológicas.

      Responder

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